Por acaso total, um dia desses sai de casa mais tarde do que eu gostaria e peguei o Barra 2. Quase que desisto, mas não estava lotado e eu entrei.
Logo na subida, uma surpresa: o ônibus tinha algumas TVs LCD que exibiam o clipe de Quando a Maré Encher (NZ)! Achei aquilo surreal porque quase ninguém conhecia. Claro que a banda chamou minha atenção, mas a discussão não é essa. A BusTV me admirou, na verdade, por incluir um conteúdo que não faz parte do repertório da maioria daquelas pessoas, sendo a TV a mídia de massa mais clássica e o ônibus um ambiente que reúne perfis aleatórios.
Me impressionaria se fosse qualquer outra atração alternativa. O fato é que não era Chiclete com Banana, Psirico ou Silvano Salles, “o cantor apaixonado”. Bom, eu tive no máximo dez minutos até o meu ponto e, depois do clipe, só deu pra ver uma vinhetinha sobre o 11 de Setembro. Consegui gravar o endereço do site da empresa.

Pelo que deu para captar, a mídia deve estar em fase de testes, afinal, eu nunca tinha visto isso por aqui. A BusTV parece ter uma programação própria, com diversos canais que mudam, diariamente, e variam de acordo com a cidade. Entre os assuntos: notícias, curtas, dicas, curiosidades, música, etc. A segmentação por linhas de ônibus seria ainda mais interessante. Será que já tem?
A proposta foi criada para veicular propaganda, óbvio, e apesar de esse aparelho ser novo em nossos coletivos urbanos, é algo que lembra aqueles ônibus de viagem que exibem filmes, ou mesmo a mídia de elevador. O diferencial é (ou pode ser) justamente o conteúdo. Como a BusTV não é uma emissora, acho que a produção deve ficar mais livre e a propaganda mais objetiva, sem jabá.
Tentei pesquisar alguma coisa e descobri que na Europa este formato é comum. No Brasil, o serviço já está disponível em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Salvador, Recife, entre outras.
Pensando sobre isso, percebo duas possibilidades: pode ser que a BusTV nem dê certo e se transforme em mais um incômodo contemporâneo, servindo apenas para tirar o sossego da sua viagem com uma enxurrada de propagandas inadequadas ao ambiente (embora eles aleguem que o som é baixo e não incomoda). Por outro lado, quem sabe, imaginei que ela pode ser usada para transformar a conversa do ônibus em algo mais frutífero. Nem que o assunto seja a própria propaganda.
Desde que cheguei a Salvador eu me impressiono absurdamente com a tamanha “produtividade” das conversas cotidianas nos busus. Não quero parecer bairrista, mas por aqui os jovens de classe média, em geral, conversam abobrinha em demasia. Lembro quando voltava da faculdade e cansava de ouvir o mesmo papo todos os dias: quem vai à próxima “chopada de medicina”, o que vestir no “Forró do Piu Piu”, a que horas é o “Ensaio do Parangolé”, quantas foram as “pegações” da última festa, o que fazer para enrolar os professores em situações diversas… Será que o problema era a minha rota? Sinceramente, não sei.
Pois bem, se a Agenda Setting ainda funciona, imaginei que alguém poderia usar estas telas ambulantes para algo mais: justamente informar e difundir cultura para promover a discussão. Meio utópico, mas por que não falar de saúde, camisinha, DSTs, meio ambiente, dos problemas da cidade ou até do bairro (dependendo da segmentação), passar informações de utilidade pública, divulgar a cultura local e veicular música boa?
Pode dar pano pra manga sim. Com mensagens curtas, objetivas, criativas e com apelo visual, dá pra informar e até conscientizar sobre alguns hábitos corriqueiros. Quantas pessoas não jogam lixo pelas janelas do veículo, por exemplo?
Ingenuidade, talvez. Mas, um dos olhares pode ser perceber a BusTV como a volta da TV às ruas, com uma repercussão semelhante à da época em que o único aparelho disponível na cidade ficava na praça central, aonde todos iam para ver e conversar. Aliando tecnologias móveis e locativas ao formato, outras ações seriam ainda mais interessantes. No engarrafamento, esse negócio pode dar certo. Pode ser que, as empresas aumentem suas vendas, mas que as pessoas se beneficiem também, se estressem menos, se informem, se divirtam e até conversem menos babaquices.