Outras mortes

As transições são como pequenas mortes dentro da vida. Em mim elas são marcadas por momentos-chave nos quais tenho uma fortíssima sensação de finitude, de perda e de medo. Sinto também euforia e felicidade pelo que virá. Nestes momentos, a consciência é tão transparente e plena que dói; o choro surge de algum lugar muito profundo que eu não sei identificar onde fica. Ele me diz que, não importa o que eu faça, algo se transformou. Então, parece ser como a morte.

Por certo tempo, apenas continuamos os mesmos, vivemos de modo mais ou menos constante, fazendo variações das mesmas coisas, até que um dia o ciclo de permanência se encerra e pronto! Começaremos a pensar e a agir diferente, não tem jeito. Pode ser por qualquer coisa, algo que você viu, que aprendeu, uma música, uma pessoa, uma fase da vida. No meu caso, ficam lembranças exatas destas rupturas. E o recomeço é igualmente marcante, ou melhor, acho que é a parte mais importante, que vai definir como será a nova vida.

Lembro de quando resolvi emagrecer quando era criança, de quando percebi que não brincaria mais de boneca, do dia em que deixei de ser tímida, de quando parei de sofrer pela separação dos meus pais, dos primeiros e dos últimos goles de álcool, dos insights a partir de maluquices cometidas por amor, das maiores decepções que me abriram os olhos, do dia em que desisti de fazer medicina para fazer jornalismo, do outro em que resolvi largar a faculdade, do dia em que resolvi ser vegan, da primeira vez que toquei maracatu por horas seguidas, da mudança para Salvador, do quase casamento e do seu fim…

Acabo de viver mais uma destas mortes e um dos dias decisivos já passou. Termino um ciclo e tenho outra vida engatada nascendo. Nunca mais serei a mesma, tenho certeza. Estou me despedindo ansiosa.

Homo nada-sapiens

Ganhou a fêmea pelos instintos, num súbito puxão de cabelos.
Perdeu-a adiante com o mesmo gesto, quando o momento era para um afago.
Sobreviveram outras variantes. Não as mais fortes ou as mais belas.
Mas aquelas de percepção aguçada; espécies que desenvolveram a habilidade de sentir.

HImPERativa

Acorde
Vá trabalhar
Mas volte
E escreva, escreva
Leia e releia
Corrija
Corrija-se
Ande daqui pra lá
Não. Corra!
Descanse depois
Mas continue
E mais e mais
Mas viva, viva agora
Não deixe passar
Ame um pouco, mesmo que não vá durar
Sorria
E sonhe um pouco também
Resolva já
E espere chegar
Lute
Escreva mais
Cuide
Se cuide
Lave, passe, cozinhe, arrume
E nem pense em dormir
Mas cochile
Se apresse
Está perto, siga
Encerre, enfim
Respire fundo
Entregue
Alivie-se
Entregue-se
E comemore
Agora despeça-se
Chore
Guarde para sempre
E recomece em outro lugar.

Um sonho em gestação…

=D

A TV de volta às ruas?

Por acaso total, um dia desses sai de casa mais tarde do que eu gostaria e peguei o Barra 2. Quase que desisto, mas não estava lotado e eu entrei.

Logo na subida, uma surpresa: o ônibus tinha algumas TVs LCD que exibiam o clipe de Quando a Maré Encher (NZ)! Achei aquilo surreal porque quase ninguém conhecia. Claro que a banda chamou minha atenção, mas a discussão não é essa. A BusTV me admirou, na verdade, por incluir um conteúdo que não faz parte do repertório da maioria daquelas pessoas, sendo a TV a mídia de massa mais clássica e o ônibus um ambiente que reúne perfis aleatórios.

Me impressionaria se fosse qualquer outra atração alternativa. O fato é que não era Chiclete com Banana, Psirico ou Silvano Salles, “o cantor apaixonado”. Bom, eu tive no máximo dez minutos até o meu ponto e, depois do clipe, só deu pra ver uma vinhetinha sobre o 11 de Setembro. Consegui gravar o endereço do site da empresa.

Pelo que deu para captar, a mídia deve estar em fase de testes, afinal, eu nunca tinha visto isso por aqui. A BusTV parece ter uma programação própria, com diversos canais que mudam, diariamente, e variam de acordo com a cidade. Entre os assuntos: notícias, curtas, dicas, curiosidades, música, etc. A segmentação por linhas de ônibus seria ainda mais interessante. Será que já tem?

A proposta foi criada para veicular propaganda, óbvio, e apesar de esse aparelho ser novo em nossos coletivos urbanos, é algo que lembra aqueles ônibus de viagem que exibem filmes, ou mesmo a mídia de elevador. O diferencial é (ou pode ser) justamente o conteúdo. Como a BusTV não é uma emissora, acho que a produção deve ficar mais livre e a propaganda mais objetiva, sem jabá.

Tentei pesquisar alguma coisa e descobri que na Europa este formato é comum. No Brasil, o serviço já está disponível em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Salvador, Recife, entre outras.

Pensando sobre isso, percebo duas possibilidades: pode ser que a BusTV nem dê certo e se transforme em mais um incômodo contemporâneo, servindo apenas para tirar o sossego da sua viagem com uma enxurrada de propagandas inadequadas ao ambiente (embora eles aleguem que o som é baixo e não incomoda). Por outro lado, quem sabe, imaginei que ela pode ser usada para transformar a conversa do ônibus em algo mais frutífero. Nem que o assunto seja a própria propaganda.

Desde que cheguei a Salvador eu me impressiono absurdamente com a tamanha “produtividade” das conversas cotidianas nos busus. Não quero parecer bairrista, mas por aqui os jovens de classe média, em geral, conversam abobrinha em demasia. Lembro quando voltava da faculdade e cansava de ouvir o mesmo papo todos os dias: quem vai à próxima “chopada de medicina”, o que vestir no “Forró do Piu Piu”, a que horas é o “Ensaio do Parangolé”, quantas foram as “pegações” da última festa, o que fazer para enrolar os professores em situações diversas… Será que o problema era a minha rota? Sinceramente, não sei.

Pois bem, se a Agenda Setting ainda funciona, imaginei que alguém poderia usar estas telas ambulantes para algo mais: justamente informar e difundir cultura para promover a discussão. Meio utópico, mas por que não falar de saúde, camisinha, DSTs, meio ambiente, dos problemas da cidade ou até do bairro (dependendo da segmentação), passar informações de utilidade pública, divulgar a cultura local e veicular música boa?

Pode dar pano pra manga sim. Com mensagens curtas, objetivas, criativas e com apelo visual, dá pra informar e até conscientizar sobre alguns hábitos corriqueiros. Quantas pessoas não jogam lixo pelas janelas do veículo, por exemplo?

Ingenuidade, talvez. Mas, um dos olhares pode ser perceber a BusTV como a volta da TV às ruas, com uma repercussão semelhante à da época em que o único aparelho disponível na cidade ficava na praça central, aonde todos iam para ver e conversar. Aliando tecnologias móveis e locativas ao formato, outras ações seriam ainda mais interessantes. No engarrafamento, esse negócio pode dar certo. Pode ser que, as empresas aumentem suas vendas, mas que as pessoas se beneficiem também, se estressem menos, se informem, se divirtam e até conversem menos babaquices.

Queijo dá em árvore?

Ora Bolas…

Paralelos

Nos raros momentos de ócio, embora eu adore, tenho fuçado pouquíssimo atrás de pérolas musicais e sonoridades alternativas. Acho muito interessante ter contato com artistas pouco conhecidos ou projetos paralelos de bandas já consagradas e também descobrir preciosidades antigas pelas quais eu ainda não tinha me apaixonado. Para isso, o Emule, o Myspace e o Last FM (que só fui descobrir dia desses) são verdadeiras dádivas!

Não é novidade, para quem me conhece, que eu sou alucinada pela Nação Zumbi e por quase tudo que os integrantes da banda produzem. Menos por eu ser conterrânea deles e mais pelo seu histórico, no qual se comprovam qualidade, ousadia e criatividade de sobra em trabalhos que sempre surpreendem. Não tenho tanto gabarito pra falar de música, mas posso dizer que, ao meu gosto, a NZ em conjunto é algo perto do perfeito. Por outro lado, os talentos individuais também são inegáveis e ainda bem que eles estão sendo bem aproveitados.

Depois dos Los Sebosos Postizos e da Orquestra Manguefônica, os caras inventaram pelo menos quatro propostas para a gente se deliciar. Se alguém souber de outras, por favor, avise.

Recentemente Lúcio Maia, o guitarrista monstrinho da banda, produziu Homem Binário, primeiro CD do seu projeto Maquinado. O grupo inclui o baixista Dengue, Toca Ogan na Percussão e o DJ PG, com participações de Siba, Du Peixe, entre outros. Na base do som, como de costume, uma miscelânea de ritmos que, neste caso, vão desde metal e hip hop até samba e baião, passando pelos estilos 60´s e 70´s. Para completar, uma pitada de literatura pós-moderna, futurismo e alguma “fumaça”.

O segundo paralelo reúne pernambucanos e paulistas numa convergência “afro-latino-cancioneiro-pernambucano-planetária”. Este é o Sonantes, projeto com Dengue, Pupillo, Gui e Rica Amabis (Instituto) e a leveza de Céu no vocal. Simplesmente lindo!

Enquanto isso, Jorge Du Peixe nos alimenta com o Autonomo (acho que é assim mesmo sem acento) e suas experimentações instrumentais viajantes. A percussão marca presença junto de beats cheios de inspiração que particularmente me agradaram bastante. Aposto que, a qualquer hora, vira trilha de filme. Projeto com personalidade; fala por si só.

Como se não bastasse, Dengue e Pupillo resolveram mostrar que ainda têm idéias de sobra e meteram a mão no 3 Na Massa, junto com Rica Amabis e as vozes de Pitty, Céu, Nina Becker, Thalma de Freitas, Leandra Leal, entre outras convidadas. O CD Na Confraria das Sedutoras é um trabalho inusitadíssimo que traz as mais diversas vivências amorosas relatadas por personagens desinibidas, ao embalo de “experiências sonoras, arranjos inesperados e composições arrojadas”. É preciso ouvir com calma…

+ Mulheres

Falando em mulheres e música, só para abrir um parêntese, felizmente estamos com uma boa safra de novas cantoras, já notaram? Isso já virou até notícia. Jovens como Céu, Vanessa da Mata, Ana Cañas, Rebeca Matta, Roberta Sá estão engrossando nosso acervo de boas produções femininas dentro da música brasileira contemporânea. E esses são apenas alguns nomes…

Entre as gringas que estão indo na mesma direção, um bom exemplo é a francesa Pauline Croze. Eu já vinha apreciando o seu disco de estréia, lançado em 2005, e acabo de baixar o seu segundo trabalho, Un Bruit Qui Court. A cantora ainda é pouco conhecida por aqui, mas já conquistou o público e a crítica na França com sua voz doce e sensual, letras sensíveis e melodias gostosas em violão e guitarra. Numa primeira impressão, o novo CD parece trazer a mesma sensibilidade do primeiro, com arranjos diferentes que incluem metais e boas pegadas eletrônicas. Baixe ai.

Oh, meu chuchuzinho!

Acho que todo mundo já se perguntou alguma vez por que danado o chuchu, um legume tão sem graça, virou maneira carinhosa (ou brega, na verdade) de se referir à pessoa amada. Poderia até soar como uma ofensa, pensando bem…

Estas curiosidades inúteis são legais… E olha que elas nem são tão inúteis assim. Estou tendo a comprovação de que, na hora de aprender novas línguas, a etimologia e a origem popular das palavras e expressões contribuem muito. Quando se trata destas esquisitices, fico agoniada querendo entender de onde saiu tanta criatividade!

Pois bem, na minha última aula de francês descobri a origem do tal “chuchu”. E digo logo que não tem nada a ver com o nosso legume aguado. Na França, parece que o romântico é usar outro vegetal (lá ele, antes que alguém venha com maldade).

Ainda não sei como é chuchu em francês, mas chou quer dizer couve. Já chou chou significa ma preferée / mon preferé. Ou seja, as criaturas chamam suas coisas preferidas de chou chou (chuchu, falando com biquinho e sotaque).

Alguma coisa aconteceu na hora de aportuguesar. Para ganhar o coração das “preferidas”, os marmanjos daqui devem ter trocado as verduras… Ou então rolou um improviso para ficar mais chique e sutil, afinal “minha couve couve” é meio bruto. Bom, é tudo especulação, mas faz sentido… =P

De quebra, também descobrimos na aula a origem de “jogo de amarelinha”, nome daquela brincadeira infantil na qual a gente desenha alguns quadrados no chão, joga uma pedrinha e vai pulando até chegar ao céu. Em francês o jogo chama-se la mareille.

Não sei por que nunca comprei aqueles livrinhos sobre o assunto. Vou colocar na lista… Pra quem se interessa, olha ai três opções baratinhas no Submarino:

E tudo lá parecia impregnado de eternidade…

Lá longe ficou o apartamentozinho da Caxangá. Recordo ainda de tudo que vivi por lá, mas sem o direito de me despedir. Cada lembrança é tão emocionante pra mim quanto a Evocação do Recife para Manuel Bandeira.

Minha mãe vendeu, esta semana, o apartamento em que vivi toda a minha vida para um jovem casal com uma filhinha. Estão começando a vida, assim como começava a nossa no início dos anos 80. A moça nasceu no ano em que meus pais mudaram para lá, um ano antes de mim. Parece um ciclo natural, como se cada coisa tivesse realmente sua hora e seu lugar. É uma dança bonita.

Mas confesso que sinto uma coisa estranha. Não é lamento. Ao contrário, tem felicidade. Minha mãe e meu irmão mais velho estão mudando para um lugar melhor e mais seguro, o que é necessário nos tempos de hoje, em Recife.

A sensação esquisita parece, na verdade, nostalgia misturada com um receio. Este apartamento é como uma constante em minhas lembranças, uma referência espacial e visual que contribui para que elas estejam sempre vivas, até hoje. Pois, mesmo morando longe há quatro anos, sempre havia a hora de voltar. Tudo estava lá, mesmo que de forma diferente. Sem essa referência, vem um medo de esquecer os detalhes, por não poder mais ver o que resta lá e rever grande parte da minha vida nestas coisas.

Me adapto com facilidade às mudanças, gosto e preciso delas. Ainda assim tenho meus apegos. Guardo de tudo, para que um dia eu possa rever e me lembrar do tempo que passou, dos cheiros, das músicas, enfim… É isso o mais importante e não as coisas materiais em si.

Esta semana, com a notícia sobre o apartamento, muitas cenas vieram à cabeça, todas de uma vez. Foi um sentimento forte e emocionante. Chorei e lembrei de quando chorava com medo de crescer. Acho que a associação é por ambos terem sido momentos de despedida. Fico feliz que uma outra menininha vá dormir no quarto que foi meu. Mainha disse que ela olhava tudo curiosa, gostando do que via e com ares de quem queria ficar. Outra família vai herdar toda a energia boa que deixamos lá. Eles parecem pessoas boas segundo minha mãe, e isso me deixa tranqüila.

Me sinto meio boba escrevendo sobre isso, mas ao mesmo tempo, sei que faz parte do meu modo de ver as mudanças na minha vida. Vou correr agora e fazer uma lista de coisas, rápido assim como um brainstorm, para eu lembrar para sempre. Faltarão muitas, eu sei, mas espero que elas fiquem conservadas em algum lugar. Tentarei escrever, depois, um pouco sobre cada uma delas. Vai dar tanto trabalho, como se fosse uma autobiografia. Então, isso fica aqui só pra mim.

Desnuda

Este blog se chamaria “Desnuda” se o domínio estivesse disponível. Depois de repensar, encontrei em minhas paixões uma outra inspiração.

Mas por que “Desnuda”? Ahh, desde menina eu sempre gostei de escrever, mas tinha receio de que as pessoas lessem os meus textos. Não sei se mudou muita coisa. Não importa sobre o que eu escreva, tenho sempre a impressão que estão olhando para dentro de mim, ou que cada palavra vai me expondo, como se eu tirasse peça por peça da minha roupa e deixasse à mostra algo de muito secreto.

Mas, engraçado, o que haveria de tão secreto? Penso. Em geral, não tenho pudor em falar sobre qualquer assunto, não sou uma pessoa misteriosa cheia de segredos. Costumo ser até transparente demais. Mas todo mundo tem a sua região velada, todas aquelas coisas que ficam guardadas só consigo. Deve ser o medo de alguém conseguir entrar lá, então (Já diria Goffman hehehe).

Por causa desta sensação, sempre preferi cultivar meus caderninhos ou papéis desorganizados com o registro de minhas impressões do mundo, das doideiras que passavam pela cabeça; escritos sobre meus anseios, meus pecados, minhas vaidades, meus medos, enfim… Sempre foi algo que era somente meu e que ainda guardo e releio. Só que, de vez em quando, vem a vontade de compartilhar aquilo que inquieta ou qualquer amenidade que seja.

Houve um tempo em que eu escrevia muitas cartas… Enviei algumas aos meus amores, expressando o que havia de mais sincero em mim. Desnudava-me sem medo. Outras tantas eu não tive coragem de remeter e guardo até hoje sem terem chegado ao seu destino. Mesmo imaturas, sempre foram intensas e, por isso, também me deixavam completamente exposta. A diferença é que eu não me incomodava, pois me sentia segura ao “tirar a roupa” para um cúmplice. Muitas e muitas linhas se foram junto com esses antigos sentimentos da adolescência.

Nunca mais escrevi cartas e os e-mails são sempre muito instantâneos e fugazes. Algumas cartas ficaram e hoje posso dar muita risada do que eu escrevia. Às vezes, me impressiono com outros olhares que já não tenho ou me divirto com tanta ingenuidade. Houve um tempo em que minhas reflexões em segredo tentavam buscar uma explicação da filosofia, na tentativa de alimentar minha ebulição de descobertas. Na verdade acho que todo mundo passa por isso, né?

Hoje, quase não escrevo mais descompromissadamente. Acho que fui consumida pelo cotidiano da escrita obrigatória e enjoei. Trabalhar com texto é um negócio prazeroso, mas extremamente árduo e cansativo. Para pessoas perfeccionistas então, é um processo interminável. Ai, a impressão que eu tenho ao escrever é que acabei criando um estilo quadrado e sem graça. Pois, então, é uma boa hora para ousar e ensaiar uns pequenos “streep-teases”. Não?

Devagar, vamos lá. Tomara que eu não fique com vergonha…