E tudo lá parecia impregnado de eternidade…

Lá longe ficou o apartamentozinho da Caxangá. Recordo ainda de tudo que vivi por lá, mas sem o direito de me despedir. Cada lembrança é tão emocionante pra mim quanto a Evocação do Recife para Manuel Bandeira.

Minha mãe vendeu, esta semana, o apartamento em que vivi toda a minha vida para um jovem casal com uma filhinha. Estão começando a vida, assim como começava a nossa no início dos anos 80. A moça nasceu no ano em que meus pais mudaram para lá, um ano antes de mim. Parece um ciclo natural, como se cada coisa tivesse realmente sua hora e seu lugar. É uma dança bonita.

Mas confesso que sinto uma coisa estranha. Não é lamento. Ao contrário, tem felicidade. Minha mãe e meu irmão mais velho estão mudando para um lugar melhor e mais seguro, o que é necessário nos tempos de hoje, em Recife.

A sensação esquisita parece, na verdade, nostalgia misturada com um receio. Este apartamento é como uma constante em minhas lembranças, uma referência espacial e visual que contribui para que elas estejam sempre vivas, até hoje. Pois, mesmo morando longe há quatro anos, sempre havia a hora de voltar. Tudo estava lá, mesmo que de forma diferente. Sem essa referência, vem um medo de esquecer os detalhes, por não poder mais ver o que resta lá e rever grande parte da minha vida nestas coisas.

Me adapto com facilidade às mudanças, gosto e preciso delas. Ainda assim tenho meus apegos. Guardo de tudo, para que um dia eu possa rever e me lembrar do tempo que passou, dos cheiros, das músicas, enfim… É isso o mais importante e não as coisas materiais em si.

Esta semana, com a notícia sobre o apartamento, muitas cenas vieram à cabeça, todas de uma vez. Foi um sentimento forte e emocionante. Chorei e lembrei de quando chorava com medo de crescer. Acho que a associação é por ambos terem sido momentos de despedida. Fico feliz que uma outra menininha vá dormir no quarto que foi meu. Mainha disse que ela olhava tudo curiosa, gostando do que via e com ares de quem queria ficar. Outra família vai herdar toda a energia boa que deixamos lá. Eles parecem pessoas boas segundo minha mãe, e isso me deixa tranqüila.

Me sinto meio boba escrevendo sobre isso, mas ao mesmo tempo, sei que faz parte do meu modo de ver as mudanças na minha vida. Vou correr agora e fazer uma lista de coisas, rápido assim como um brainstorm, para eu lembrar para sempre. Faltarão muitas, eu sei, mas espero que elas fiquem conservadas em algum lugar. Tentarei escrever, depois, um pouco sobre cada uma delas. Vai dar tanto trabalho, como se fosse uma autobiografia. Então, isso fica aqui só pra mim.

2 Respostas

  1. Pois eh Lu,
    Fantástico o que vc escreveu.
    Olho as vezes para meu passado e sinto isso não só com lugares, objetos…mas pessoas. Acho que o mais comum são as lembranças de pessoas…que passaram pela sua vida e deixaram rastros bonitos. Minha vó foi uma delas. Lembro de dançar com ela na sala, sem música. Era uma recíproca de felicidade. O que eu conversei com você sobre reciprocidade. A música estava nas nossas cabeças…a música era a celebração da vida.

    (…)

    Que novas casas tragam boas histórias.
    Que novas pessoas tragam felicidades.

    Seu blog está muito legal. Continue por favor.

  2. Oww Lu, tão bom lembrar do passado bom da infância! Que essas lembranças possam fazer vc criar mais..
    beijos

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